Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

 

 

As primeiras páginas de A viagem do Elefante colocam-nos na câmara real de D.João III; um déjà vu a trazer-nos à memória uma cena, em tudo semelhante, desta vez com D.João V, em Memorial do Convento

Uma leitura de A viagem do elefante confirma uma  aproximação maior a Memorial do Convento, mais do que a outros títulos mais recentes do autor, na medida em que é a partir de um facto histórico conhecido que, preenchendo os espaços vazios por meio da imaginação, se contrói  a narrativa da viagem do elefante.  História e ficção complementa-se, numa dialéctica de leitura que assenta na problematização de toda a relatividade da História. De resto, ainda que o autor tenha experimentado outros géneros, a verdade é que nunca abandonou inteiramente o material histórico; mesmo quando este pareceu estar completamente ausente.

 

No fundo há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o  que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade.

 

O livro é uma viagem, de Belém a Viena, de um elefante indiano e do seu cornaca, presente do rei português a Maximiliano II, genro de Carlos V, sendo que a narração desta viagem-odisseia reconstrói a diversidade de momentos que preenchem uma existência e que, por vezes, fazem com que esta se cruze com os grandes acontecimentos da História. Os dois intervenientes desta história são resgatados duma subsistência salobra para uma experiência grandiosa que coloca os dois, cornaca e elefante,  no curso dos grandes eventos da história: as questões teológicas da Igreja; as fragilidades geopolíticas da Europa de 1600; a travessia dos Alpes, proeza só igual em Aníbal;  até à chegada apoteótica a Viena, agraciada pela entrada em cena de uma criança. O elefante morreu dois anos depois - Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam -; dele restou as suas patorras transformadas em suporte de bengalas.

 

Existe neste livro, muita auto-referencialidade do escritor ao seu próprio universo ficcional; existe muia ironia e muita lucidez. Enquanto o escrevia, parou, refregou a morte e retomou-o, sem prejuízo dessa constante ironia e lucidez, como se assim tivesse de ser.

A moral é-nos dada nesta imagem:

 

Cada um é para o que nasceu, mas há que contar sempre com a possibilidade de que nos apareça pela frente excepções importantes, como é o caso de solimão, que não nasceu para isto, mas a quem não restou outro remédio que inventar por sua própria conta alguma maneira de compensar a inclinação do terreno, como foi esta de alongar a tromba para a frente, o que lhe dá o ar inconfundível de um guerreiro lançado à carga e a quem esperam morte ou glória.

 

 

 


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publicado por Mnemosine às 13:21 | link do post | comentar

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