Quarta-feira, 02.09.09

 

Ser a paisagem,

Que vigia a fronde dos caminhos

Ser o ramo alto,

Que acena, competindo os pássaros

Ser o canto da cigarra e

A chuva de Verão

E o pó das estrelas

Ser antes, muito antes da hora sonhada

 

Ser tempo, pedra e rio

Respirar em todas as coisas

Volatizada na essência do vento,

Para que, em toda a parte,

Sem nunca, nunca me ver

Tenhas sempre,

Para sempre de me encarar.

 



publicado por Mnemosine às 14:00 | link do post | comentar

Segunda-feira, 24.08.09

 

O quarto era um todo febril, com vestígios de calor lunar, tão negro como o interior dum caixão enorme, a escuridão espalhava-se por todas as superfícies e, alimentando-se  das partículas duma coisa que ele nunca vira, o quarto era a coisa mais negra do mundo.

 

Yukio Mishima. O marinheiro que perdeu as graças do Mar.

 

Insónia

 

A  espessura da noite

Mancha de opacidade

Este espaço informe, o pensamento

 

Imagens  vogam, distorcidas

Na ânsia de se

Construírem, caleidoscópicas

 

O pensamento sucede-se

Busca relevos,  qualquer coisa que seja sentido

Qualquer coisa que possa ser

Um pensamento livre, sensível

Uma porção tangível de verdade

Que inunde de luar

O rosto da noite.

 

 



publicado por Mnemosine às 21:30 | link do post | comentar

Segunda-feira, 17.08.09

 

Acordo, do meu sono claro da tarde e

Recomeço o baloiço da cadeira.

O sossego

Do alpendre chama a si um pardal

Que ali pousa, à escuta.

Aceito a sua guarda.

Recosto-me na cadeira

A respirar o perfume das laranjeiras.

 

 



publicado por Mnemosine às 21:06 | link do post | comentar

Terça-feira, 11.08.09

 

Às portas de Istambul  ficam

Pensamentos carregados, abandonados
À sua sorte, nos sapatos

E o chão, percorrido de tapetes

Por onde passam, a todo o momento

Gatos

Agracia os nossos passos

Os altos minaretes

Indicam a direcção de novos pensamentos

O olhar eleva-se a

Um sereno céu turquesa

E ai fica, reverenciando

As alturas das mesquitas, dos palácios,

Guardiões repousados

Em profunda meditação,

Pressentindo só a silenciosa presença

A brisa delicada do Bósforo

Empoalha de ouro a minha pele

Pelo ar, alecrim e açafrão

Parados

Uns olhos húmidos cativam os meus

Oferecem-se a uma memória

Istambul enche a minha alma de céu

Os meus-teus braços

Erguem-se ao azul

E rodopiam, ora em transes derviches,

Ora em ritmos de harém.

 



publicado por Mnemosine às 11:22 | link do post | comentar

Terça-feira, 30.06.09

 

 

a natureza ambivalente do olvido que viria a enlouquecer Proust

a moeda atirada ao ar e a cair na nossa mão

quais dentre nós lutam por esquecer

e quais dentre nós  lutam por não esquecer

qualquer uma destas lutas a ser uma mesma derrota

a do Esquecimento

tão irremediável, tão definitivo

a vida repassada de brisas e ventanias

rajadas de dor e agonia

fisgadas de esperança e alegria

os rasgos do coração, inúteis

porque no fim, é só fim

a consumação do deserto

 

 



publicado por Mnemosine às 14:28 | link do post | comentar

Sábado, 20.06.09

 

 

De silêncio me grito e me dilato

Nas frases blateradas pelo Mundo

A ter de ser, serei, mas pouco exacto

Nas coisas que, ignorando, me aprofundo.

 

Fui rei enquanto fui vagabundo,

Sem ter de atraiçoar meu ar pacato.

Vivi a Eternidade num segundo,

Tendo sido a nudez meu próprio fato.

 

Das rosas não senti o seu perfume...

Das paixões, nem o gelo,nem o lume...

De mim, talvez a alma como emblema...

 

Por isso é que me grito de mudez

E a esse Ser Sublime que me fez

Eu entrego o Silêncio num poema!

 

15 de Fevereiro de 2002

 

 



publicado por Mnemosine às 21:56 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 12.06.09

 

soltam-se ébrias gargalhadas

à volta desta mesa posta de alegria

um carrossel de conversas partilhadas

que tecem e entretecem

motivos de viagens a haver

e  povoam o coração de mornos silêncios

 

a conjugação futura das frases

jorra nos copos que vamos bebendo

os teus olhos entornando-se nos meus

e anuindo, porque hoje vale o momento,

renegamos à solidão

e abrimos o riso à soleira da tarde

 

esta mesa é uma ilha

e nós, a única coisa que trouxeste.

 

 



publicado por Mnemosine às 20:38 | link do post | comentar

Segunda-feira, 08.06.09

 

De braços desfraldados

ofereces-me

um abraço no meio do mundo

aninho-me, pérola

na concha dos teus braços.

 

 

 



publicado por Mnemosine às 20:38 | link do post | comentar

Sexta-feira, 29.05.09

 

O dobrar dos sinos

ecoou

no silêncio dos beirais,

bateu nas sacadas,

fez ricochete

e esgueirou-se, lodoso e esguio,

até se esgotar nas sombras do laranjal.

 

À mesa,

os talheres quedaram-se solenes

num enlace desampado

as mãos recolheram-se expectantes

num abraço côncavo

e ficaram-se.

 

Lá fora os campos de arroz

espelhos de água

rachados a meio

pelo fio bulicioso da auto-estrada

continuaram desafiadores

a encará-la.

 



publicado por Mnemosine às 20:42 | link do post | comentar

Domingo, 15.02.09

 

Deixar -se fuir na escorrência das águas

Deixar-se cair da altura das dunas

Deixar-se vogar na poalha da tarde

Deixar-se levar na sombra do vento

 

Deixar-se ficar

Deixar o tempo passar

Deixar

 



publicado por Mnemosine às 15:09 | link do post | comentar

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