Quinta-feira, 25.03.10



publicado por Mnemosine às 21:25 | link do post | comentar

Quinta-feira, 18.02.10

 

Confesso que tenho medo, mas não sei bem de quê, nem de quem. Sei que uma destas noites uma mulher muito pálida e bela baterá docemente à minha porta e me pedirá que a acompanhe, ouvindo-se em fundo uma melodia de Mozart.

É por isso que acordo tantas vezes alagado em suores frios, talvez por ter medo da única presença que me há-de libertar de tudo o que sofri e que terá corpo e rosto de mulher sem idade nem rosto visível e que me levará pela mão, (...) até onde podem ir os derradeiros sonhos de um homem que passou a vida a fugir do grande amor. (...) e acabou por ficar condenado à mais terrível das solidões.

 

José Jorge Letria. O Espelho de Casanova.



publicado por Mnemosine às 13:54 | link do post | comentar

Sábado, 30.01.10

 

Saboreia os beijos, antes das lágrimas

e saboreia as lágrimas, depois dos beijos.

Saboreia antes que se desvaneçam

num vazio feito de ruído e ausência.

 

Escuta o oráculo recôndito do sangue

que, das brisas suaves, recolhe

prenúncios de delícias.  Escuta, antes

que as tuas mãos se esvaziem de esperança.

 

Respira a manhã, antes que anoiteça

e respira a noite, antes que amanheça, e

as mornas tardes da infância, num tempo

que não sabia a tempo, só a maresia.

 

Sente o amor, sente antes que cesse.

 

Quando te rodearem  murmúrios

Que valor terá o teu epitáfio,

se a vida não te pertenceu.

 

 

 



publicado por Mnemosine às 17:37 | link do post | comentar

Domingo, 03.01.10

 

A quietude, o silêncio

desta paisagem alagada.

As copas das árvores

rompem em tufos, arbustos rasteiros 

na linha de água.

A estrada parada,

só  metros adiante retomada.

 

O sossego deste ecrã líquido

onde, ainda há pouco,

água, raios e vento,

riscavam com fúria

um filme de destruição.

 

Memória de terrores ancestrais,

quando a natureza era Deusa

e tudo eram sinais.

 

 

 



publicado por Mnemosine às 18:52 | link do post | comentar

Quinta-feira, 17.09.09

 

 

Sem nos tomarem por estranhos, as gaivotas deambulam no passeio, a nosso lado.

É como se os pássaros fossem animados de uma sabedoria instintiva que aceita o convívio das diferenças, quando  reservadas são as distâncias.

 

 



publicado por Mnemosine às 11:03 | link do post | comentar

Domingo, 30.08.09

 

A minha curiosidade irmã das cotovias.

 

Sentemo-nos aqui. Daqui vê-se mais céu.

É consoladora a expansão enorme desta altura estrelada.

Dói a vida menos ao vê-la; passa por nossa face quente da vida o aceno pequeno dum leque leve.

 

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.

 



publicado por Mnemosine às 14:50 | link do post | comentar

Quarta-feira, 19.08.09

 

Era como se não houvesse nomes, aqui, como se não houvesse palavras. O deserto levava tudo no seu vento, apagava tudo. Os homens tinham a liberdade do espaço no olhar.  A areia ocre cobria todos os vestígios, todos os ossos.

 

J. M. G. Le Clézio. Deserto.

 

 

Sheltering Skies. Bernardo Bertolucci

 

 



publicado por Mnemosine às 15:27 | link do post | comentar

Domingo, 05.07.09

 

Como disse Wittengestein « A morte não é um acontecimento da vida» Não podemos vivê-la, podemos apenas vê-la acontecer aos outros, com diferentes graus de compaixão e medo, sabendo que um dia teremos o mesmo destino.

 

Poderíamos dizer que o nascimento, em si,  é uma sentença de  morte (...), mas é uma ideia perversa e inútil. Mais vale viver a vida e tentar apreciar o tempo que passa.

 

 

Traduziu-se Deaf Sentence de David Lodge por A vida em Surdina, a tradução possível. Na verdade, a tradução livre seria «Uma Sentença de Surdez» e se aprofundarmos, traduzir-se-ia por «Uma Sentença de Morte», na medida em que as pessoas surdas  não são capazes de ouvir as consoantes, precisamente a diferença entre «dead» e «deaf», diferença pouco perceptível da Língua Inglesa, mesmo para ouvidos treinados. E de resto, é isto que vamos encontrar no livro: a surdez de Desmond Bates a indiciar  a aproximação da morte que a personagem vai consciencilizar e viver por antecipação,  no processo de decadência e morte do seu próprio pai. E fá-lo, mas de forma divertida, evidenciando, por outro lado, o divertimento que é para os outros, a tragédia de um surdo. Os cegos geram sentimentos de compaixão, enquanto que os surdos de enfado.

Reflectindo a partir da afirmação de um condenado de Auschwitz, lugar que Desmond vai visitar a conselho do seu filho,  este reflecte as suas próprias perdas e conclui que o melhor é apreciarmos o tempo que temos. Aquele condenado tinha deixado um papel enterrado num frasco, na esperança deste poder chegar às mãos da sua mulher, e nele  lamentava não ter aproveitado o tempo que teve com ela, de não ter sido capaz de a apreciar no tempo em que isso era possível.

O Tempo é o mais precioso capital das nossas vidas.

A nossa vida vivê-mo-la no tempo e saber apreciar plenamente o tempo da nossa vida, na consciência de que cada momento que vivemos, em alegria ou tristeza, é irrepetível, é vivê-la. É torná-la memorável.

 



publicado por Mnemosine às 21:41 | link do post | comentar

Terça-feira, 30.06.09

 

 

a natureza ambivalente do olvido que viria a enlouquecer Proust

a moeda atirada ao ar e a cair na nossa mão

quais dentre nós lutam por esquecer

e quais dentre nós  lutam por não esquecer

qualquer uma destas lutas a ser uma mesma derrota

a do Esquecimento

tão irremediável, tão definitivo

a vida repassada de brisas e ventanias

rajadas de dor e agonia

fisgadas de esperança e alegria

os rasgos do coração, inúteis

porque no fim, é só fim

a consumação do deserto

 

 



publicado por Mnemosine às 14:28 | link do post | comentar

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